
O sepultamento é feito sem nenhuma cerimôni. Não há pêsames, homenagens, flores ou lágrimas de parentes. Como testemunhas, apenas os coveiros e funcionários do Instituto Médico Legal (IML). Para muitos, isso representa a falta de dignidade do poder público para com os que morrem no anonimato e são jogados em covas identificadas apenas como números no cemitério NSR Aparecida, no bairro do Tarumã, Zona Oeste.
Assim foram enterradas, como indigentes, 70 pessoas no ano passado. Esse ano, foram 10 e ainda há 18 corpos que estão no IML, aguardando por identificação ou que apareça um parente ou alguém para sepultá-lo. Caso isso não ocorra esses corpos vão engrossar a lista daqueles que são sepultados sem ter direito a um caixão ou uma lápide com o seu nome e uma única derradeira homenagem, falta de humanidade.
Depois de ficarem por mais de 30 dias aguardando identificação, os corpos são colocados em sacos plásticos e enterrados. No entanto, há cadáveres que são enterrados desnudos e envoltos apenas em pedaços de pano, exatamente como aconteceu no dia 18 do mês passado.
Segundo o coordenador operacional do IML, Carlos Procópio dos Santos Reis, a maioria é vítima de morte violenta - homicídios, acidentes de trânsito, outros tipos de acidentes e afogamentos - e são do sexo masculino com idade entre 30 e 60 anos de idade. Alguns dos corpos vieram dos varadouros onde foram executados a tiros. Apenas 40% são de morte natural e vieram de hospitais.
A maioria não carregava documentos, outros, mesmo sendo conhecidos, a família não apareceu no IML para retirar o corpo e fazer o sepultamento. “Nessa caso não há nada a fazer senão fazer o sepultamento como indigentes”, diz Prócopio.
Mesmo assim, o sepultamento de indigentes obedece a Lei. Passados os 30 dias, o corpo é fotografado, é feito a coleta das impressões digitais, o exame da arcada dentária, odontograma e depois é necropsiado. Todas essas informações são arquivadas junto com o número da sepultura e o nome do cemitério onde ele foi enterrado.
Fotos: Reprodrução do jornal A Crítica de 10/02/2008.
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